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Sumário

Estudo mostra que água residual com tratamento secundário ainda transfere resistência antimicrobiana para hortaliças

Pesquisa reforça importância do uso de tratamento terciário na água reutilizada para irrigação, especialmente em cultivos de folhas consumidas cruas como a alface.


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Um novo estudo publicado na Frontiers in Microbiology alerta que a água residual com tratamento secundário, embora amplamente usada para irrigação agrícola, ainda pode transferir bactérias resistentes a antibióticos para alimentos frescos. A pesquisa, feita sob condições controladas com mudas de alface, mostra que apenas o tratamento terciário da água foi eficaz em reduzir significativamente esse risco.

Cresce o uso de efluentes tratados na agricultura

Com o aumento da escassez hídrica, o reaproveitamento de efluentes tratados em lavouras tem se tornado uma solução recorrente. Estima-se que mais de 20 milhões de hectares no mundo já utilizem esse tipo de recurso. No entanto, esse avanço traz um novo ponto de atenção para os profissionais de alimentos: o potencial de disseminação de genes de resistência antimicrobiana (ARGs) através da água de irrigação.

Do tratamento à folha: como a resistência é transferida

No experimento, 936 mudas de alface foram irrigadas com três tipos de água: potável, tratada secundariamente e tratada terciariamente. A água secundária continha Escherichia coli e a cepa resistente ESBL-E. coli em níveis detectáveis, ao contrário da potável e da terciária.

As plantas irrigadas com água secundária apresentaram contaminação em 94% dos casos com E. coli e em 61% com ESBL-E. coli. Já nos outros dois grupos, esse índice caiu drasticamente, com E. coli sendo detectada em apenas 33% das amostras e ESBL-E. coli completamente ausente.

Além disso, genes como blaTEM, sul1, tetA e blaCTX–M–1 – amplamente utilizados como marcadores ambientais de resistência, também foram analisados. Eles estavam presentes em maior abundância nas plantas irrigadas com água secundária, apesar de níveis residuais aparecerem em todas as amostras, inclusive nas irrigadas com água potável, indicando uma possível contaminação inicial nas mudas.

Tratamento terciário: uma barreira eficaz, mas não absoluta

O tratamento terciário, que inclui filtração por areia e desinfecção por luz UV-C, mostrou-se eficaz na redução de bactérias resistentes e ARGs. No entanto, mesmo com esse nível de tratamento, ainda houve transferência residual de alguns genes para as plantas, embora em níveis muito baixos (cerca de 4% dos níveis detectados na água).

Implicações para o Brasil e o setor de alimentos

Diante dos desafios hídricos, o uso de água residual tratada pode parecer uma solução sustentável. No entanto, este estudo reforça a necessidade de protocolos rígidos para reuso de efluentes, especialmente quando se trata de produtos hortícolas consumidos crus.

No contexto brasileiro, onde a produção de folhosas representa parcela significativa da agricultura familiar e abastecimento local, os riscos associados à irrigação com água inadequadamente tratada podem comprometer não só a saúde pública, mas também a rastreabilidade e a confiança do consumidor.

Para os profissionais da área de alimentos, é essencial incorporar medidas de mitigação como:

  • Auditorias na fonte de irrigação.
  • Análise de riscos microbiológicos (APPCC) que contemplem a água usada.
  • Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs) para higienização de hortaliças.
  • Treinamento em Boas Práticas Agrícolas e de Fabricação (BPF).

Mais estudos em campo são necessários

Embora o estudo tenha sido conduzido em condições controladas, ele destaca a complexidade da transferência de resistência antimicrobiana via irrigação. Condições reais como variações sazonais, tipo de solo, intensidade de exposição foliar à água e carga microbiana ambiental podem alterar substancialmente os riscos.

Fonte: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12852349/

 

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