Decisão que proíbe uso de glifosato em pré-colheita de cereais e estabelece limite de 0,1 mg/kg sinaliza mudança global no padrão de resíduos químicos; Brasil mantém tendência de alta no uso de herbicidas
A New Zealand Food Safety, agência vinculada ao Ministério das Indústrias Primárias da Nova Zelândia, anunciou em outubro de 2025 a manutenção de um dos limites máximos de resíduos (MRLs) mais baixos do mundo para glifosato em cereais: 0,1 mg/kg para trigo, cevada e aveia. A decisão também proíbe a aplicação do herbicida em fase de pré-colheita nesses produtos destinados à alimentação humana.
A aplicação do produto passa a ser permitida apenas antes da emergência das plantas, o que reduz significativamente o risco de resíduos tardios nos grãos colhidos. A medida foi tomada após uma ampla consulta pública realizada entre março e maio de 2025, que recebeu mais de 3.100 contribuições de diversos setores, incluindo produtores, pesquisadores e consumidores.
A agência neozelandesa esclareceu que a decisão não se baseou exclusivamente em risco toxicológico imediato, mas em padrões comerciais, percepção pública e práticas agrícolas já em curso no país. Muitas empresas do setor já exigem, por contrato, cereais com “resíduo zero ou quase zero”, o que vem antecipando mudanças nas práticas de aplicação.
Além disso, o valor de 0,1 mg/kg é igual ou mais restritivo que os parâmetros adotados por países como União Europeia, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, além de estar em conformidade com o Codex Alimentarius.
No caso das ervilhas secas (dry peas), o MRL foi estabelecido em 6 mg/kg, valor que segue padrões internacionais já consolidados. Essa cultura, destinada majoritariamente à exportação, tem perfil regulatório alinhado com países como Austrália, EUA e União Europeia.
Enquanto a Nova Zelândia caminha para um padrão mais restritivo e voltado à percepção do consumidor, o Brasil registra aumento expressivo no uso de herbicidas. Segundo estudo da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Universidade de Rio Verde (GO), publicado em 2025, o volume de herbicidas comercializados no país passou de 157,5 mil toneladas (2010) para 329,7 mil toneladas (2020), um crescimento de 128% em dez anos.
Nesse mesmo período, a área agrícola cresceu apenas 24%, indicando aumento de intensidade no uso por hectare. Hoje, os herbicidas representam 59% do mercado total de defensivos agrícolas no Brasil, superando a média global de 52%.
O estudo também aponta que a elevação no uso decorre, em grande parte, da perda de eficácia do glifosato frente ao avanço da resistência em plantas daninhas. Isso tem levado ao uso intensivo de outras moléculas como:
Segundo os autores, esse cenário não resulta de estratégia agronômica planejada, mas de resposta emergencial ao controle de resistência, o que eleva custos e riscos ambientais.
A tendência global indica uma maior exigência por rastreabilidade, resíduos mínimos e sustentabilidade. Nesse contexto, o setor alimentício brasileiro pode enfrentar, no médio prazo, barreiras técnicas, exigências contratuais específicas e maior fiscalização sanitária nos mercados internacionais.
A Embrapa destaca que a adaptação brasileira exigirá medidas como:
O caso da Nova Zelândia mostra que a regulação moderna não nasce apenas de risco sanitário, nasce de mercado, rastreabilidade e percepção do consumidor. O Brasil, por sua vez, encontra-se num ponto decisivo: ou antecipa a transição para sistemas mais sustentáveis e inteligentes, ou corre o risco de adaptar-se apenas quando o mercado já exigir. A diferença entre os dois cenários não é apenas regulatória, é estratégica.
Ministério das Indústrias Primárias da Nova Zelândia. Glyphosate residue limits to stay at 0.1mg/kg for wheat, barley and oats, with restrictions introduced on permitted use.
Embrapa Meio Ambiente. Estudo revela que o uso de herbicidas no Brasil cresceu 128% entre 2010 e 2020. Publicado em 11/06/2025.
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