Evento internacional revela como inteligência artificial já está otimizando compliance, reduzindo riscos e apoiando decisões técnicas em empresas e órgãos reguladores, com lições aplicáveis ao contexto brasileiro.
Durante o Encontro Anual da International Association for Food Protection (IAFP) em 2025, realizado nos Estados Unidos, um dos temas centrais foi a aplicação prática da inteligência artificial (IA) em segurança de alimentos.
Longe das promessas futuristas, as apresentações evidenciaram como modelos preditivos, machine learning e IA generativa já estão em uso na rotina de empresas, como Chick-fil-A e Ecolab, além de iniciativas colaborativas envolvendo a FDA, Creme Global e produtores agrícolas.
A mesa-redonda intitulada “Cutting through the hype: real-world benefits of AI in food safety” destacou o uso concreto dessas tecnologias para integrar dados, antecipar não conformidades e melhorar a resposta frente a riscos sanitários.
A especialista Amani Babekir, da Ecolab, apresentou como a empresa utiliza dados históricos, como resultados de monitoramento ambiental, auditorias internas e inspeções externas, para prever o nível de conformidade sanitária de lojas e unidades de produção. Esses modelos permitem direcionar ações corretivas antes que ocorram infrações, o que melhora os índices de segurança e reduz autuações.
Além disso, Babekir mostrou que a IA generativa está sendo aplicada para propor análises de causa raiz e planos de ação quando surgem resultados microbiológicos insatisfatórios. No Brasil, ferramentas semelhantes poderiam auxiliar na resposta a desvios identificados em programas de monitoramento.
Brendan Ring, da Creme Global, detalhou como a integração de dados é essencial para transformar a gestão da segurança de alimentos. A empresa está envolvida na criação de uma plataforma que unifica dados de órgãos reguladores dos EUA, como FDA, USDA e EPA, para gerar análises mais amplas e contextuais.
No setor privado, Ring citou a Food Industry Intelligence Network (FIIN), rede que agrega dados confidenciais de mais de 70 empresas para antecipar tendências e detectar fraudes. Esse modelo de cooperação poderia inspirar parcerias entre empresas brasileiras, principalmente para mitigar riscos em cadeias fragmentadas como a de hortaliças de folhas.
David Monk, Diretor Sênior de Cultura de Segurança de Alimentos no restaurante Chick-fil-A, apresentou a ferramenta Tango, um sistema de suporte à decisão baseado em IA que analisa grandes volumes de dados operacionais e aprende continuamente com os resultados. Segundo Monk, a IA permite prever crescimento de patógenos como Salmonella ou avaliar impactos de quedas de energia sobre temperaturas de produtos.
Ele reforçou que, embora a IA aumente a precisão e agilidade das decisões, ela exige supervisão humana constante. Alertou também sobre os riscos de “alucinações” geradas por modelos de linguagem, enfatizando a importância do ajuste técnico dos parâmetros e da interpretação por especialistas.
A FDA demonstrou estar acompanhando de perto essas inovações. Mark Moorman destacou os acordos de compartilhamento de dados com produtores agrícolas e a colaboração com sistemas baseados em IA. Já Sarah Murphy, também da agência, incentivou a participação dos profissionais no grupo de desenvolvimento em dados e analytics do IAFP, espaço criado para aprofundar o uso responsável da tecnologia.
Embora o debate tenha ocorrido em um contexto internacional, as lições são diretamente aplicáveis ao cenário nacional. A adoção de IA por empresas brasileiras pode transformar rotinas de verificação, gerenciamento de não conformidades e treinamento de equipes. Além disso, modelos preditivos seriam especialmente úteis para pequenos produtores e distribuidores com recursos limitados, auxiliando no foco preventivo das ações.
A integração de dados também é um desafio no Brasil, especialmente entre órgãos como MAPA, ANVISA e secretarias estaduais. Iniciativas de cooperação, inspiradas na FIIN ou nas plataformas multiagência, poderiam gerar avanços importantes em vigilância e transparência.
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