11/09/2017

Na América Latina e Caribe, é mais barato comer mal; ONU alerta para riscos à saúde pública

Transformar os sistemas alimentares será uma peça muito importante na estratégia para acabar com a fome e todas as formas de má nutrição na América Latina e no Caribe, destacaram nesta semana duas agências especializadas da ONU – a OPAS/OMS e a FAO.


sanduícheEm muitos países da região é mais barato comer mal que ter uma alimentação saudável – um aspecto que afeta sobretudo os mais pobres, que gastam grande parte de sua renda em comida. Os produtos ultraprocessados são geralmente mais baratos que os alimentos frescos e nutritivos.

Transformar os sistemas alimentares será uma peça muito importante na estratégia para acabar com a fome e todas as formas de má nutrição na América Latina e no Caribe, destacaram a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) nesta quarta-feira (6).

Ambas as agências convocaram autoridades de governos das Américas e especialistas internacionais a compartilhar, em um seminário em El Salvador, políticas públicas e experiências exitosas que permitam a criação de sistemas alimentares capazes de contribuir para a saúde da população.

Nas últimas décadas, segundo a FAO e a OPAS, os sistemas alimentares da região – o conjunto de atores e regras que determinam como se produzem, comercializam, distribuem, processam e consomem os alimentos, desde o cultivo até a mesa das pessoas – têm passado por uma profunda mudança.

“Temos vivido um processo radical e veloz: o que a Europa fez em 150 anos, fizemos em 30”, afirmou Julio Berdegué, representante regional da FAO. Mudanças econômicas, demográficas, tecnológicas e culturais têm exercido um profundo impacto tanto nos alimentos consumidos pela população como na forma que eles são produzidos, transformados, comercializados, distribuídos e consumidos.

Esta transformação transformou a região em uma ‘potência alimentar’ e já demonstrou vários efeitos positivos em termos de bem-estar da população, redução da pobreza em muitos países e oportunidades de empregos para milhões de mulheres.

No entanto, há também efeitos negativos. A América Latina registra um varejo de produtos ultraprocessados de 129 quilos per capita a cada ano, bem como um aumento relevante no consumo de alimentos ultraprocessados ou com alta quantidade de açúcar, sal e gordura – fatores que explicam um aumento considerável da obesidade na maioria dos países da região.

“O problema é que essa mudança tem acontecido sem políticas públicas suficientes e eficazes, obedecendo apenas as regras do mercado. Hoje, temos que re-governar nossos sistemas alimentares para garantir uma melhora na saúde da população”, explicou o representante.

Carlos Garzón, representante da OPAS em El Salvador, enfatizou a necessidade de “estabelecer políticas fiscais, regular a publicidade de alimentos dirigida a crianças e a rotulagem frontal de advertência nutricional que permita à população escolher conscientemente o que come”.

Antes do seminário regional, foram realizadas consultas nacionais em 12 países da região, que selecionaram suas melhores experiências para apresentação à comunidade internacional.

 

É mais barato comer mal que ter uma alimentação saudável

“O calcanhar de Aquiles da segurança alimentar é o acesso aos alimentos. Não é que não haja alimentos suficientes, mas muitas pessoas não têm recursos para adquiri-los”, pontuou Berdegué.

Em muitos países da região é mais barato comer mal que ter uma alimentação saudável – um aspecto que afeta sobretudo os mais pobres, que gastam grande parte de sua renda em comida. Os produtos ultraprocessados são geralmente mais baratos que os alimentos frescos e nutritivos.

Isso se soma ao fato de que, nos últimos anos, a redução da pobreza estagnou na região, de modo que setores da população que vivem em pobreza ou vulnerabilidade social enfrentam mais pressões que põem em risco sua segurança alimentar.

 

Mudar o sistema alimentar é uma tarefa de todos

De acordo com a FAO e a OPAS, a transformação dos sistemas alimentares para torná-los sustentáveis, justos, inclusivos e sensíveis à má nutrição requer a participação de todos.

Os dirigentes políticos e os formuladores de políticas públicas têm uma responsabilidade especial, mas as empresas privadas do setor agroalimentar também ocupam um papel central, dado que suas decisões determinam fundamentalmente a forma e o funcionamento dos sistemas alimentares.

Por isso, ambas as organizações chamaram empresas agroalimentares a se comprometer a ser parte da solução à má nutrição que afeta um número crescente de latino-americanos e caribenhos.

Por meio de suas organizações, os consumidores têm desempenhado e devem seguir desempenhando um papel ativo na denúncia de distorções dos sistemas alimentares e na promoção de estratégias e políticas para corrigi-las. Os agricultores, por sua vez, têm a tarefa de produzir alimentos cada vez mais saudáveis e seguros.

 

Estratégias integrais são necessárias

As estratégias para a construção de sistemas alimentares saudáveis devem ser integrais e incluir ações para incorporar uma visão de saúde e nutrição em todas as cadeias dos sistemas alimentares.

Esse enfoque deve informar a produção e o comércio nacional e internacional de alimentos, a logística e o processamento industrial de matérias primas alimentares, o comércio atacadista e varejista e o consumo ao nível do cidadão, que pode ser melhorado por meio de regulações sobre a promoção e venda de alimentos não saudáveis.

Da mesma forma, são necessárias políticas sociais que assegurem a todas as famílias em condição de pobreza ou vulnerabilidade o acesso, de maneira regular e cotidiana, o acesso a uma cesta de alimentos saudáveis.

Muitas dessas políticas deverão dar atenção especial a certos grupos sociais cujos indicadores de má nutrição são piores do que a média da população, incluindo os povos indígenas, as crianças e as mulheres.

A FAO e a OPAS instaram os países a melhorar seus sistemas de monitoramento e pesquisa sobre a relação entre sistemas alimentares e má nutrição, para ter, dessa forma, um registro cada dia mais preciso que permita investimentos com um bom custo-benefício, bem focalizadas e que verdadeiramente resolvam o problema.

Fonte: ONUBR